segunda-feira, abril 27, 2026
As primeiras palavras virão em breve. Ontem chegou o primeiro dente. A sensação de não ter tempo para nada mais do que cuidar de que nada de mal acontece é o meu maior peso. a certeza de que em poucos minutos a Maria vai precisar de mim leva a que nem sequer comece. O melhor é deixar uma página sempre aberta. Uma página a que possa sempre voltar.
Não vai bem o meu coração. Apesar disso, tem sido bastante enriquecedor o tempo que tenho passado em casa a cuidar da Maria. Tem-me permitido ganhar um outro modo de ver e de sentir a condição de cuidador primeiro de um ser que se desenvolve a cada dia, a cada novo ciclo de come, dorme e brinca. Não é muito mais o que a Maria faz e eu acompanho. Tem-me parecido que estou a fazer um bom trabalho e que ninguém diga que isso não é trabalho. É trabalho mal pago, pago a 65% do meu salário habitual no laboratório.
Uma praça, uma livraria, um café.
A ideia de Europa
George Steiner
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Cafés
Haverá um tal lugar? Uma praça onde se possa visitar uma livraria que por acaso também seja o lugar para tomar um café, ler um livro, uma revista ou um jornal, conversar, olhar, esperar, ou apenas estar? Eu já me contentaria em ter uma praça onde tomar um café de forma descontraída. Ou em visitar uma livraria apenas por ser agradável estar num lugar calmo, cheio de cheiro a livros, sem mais apelos ao consumismo do que convites à leitura, a mais ou melhor conhecimento, quem sabe até melhor entendimento das mais variadas milenares questões que se põe o ser humano.
Tenho vários desses lugares registados na memória. Alguns são como segundas casas.
Berlim tem muitas e belas praças. Tem muitas e riquíssimas livrarias. Tem muitíssimos cafés apelativos aos mais diversos gostos. A minha busca por cada um destes três elementos da cultura europeia serão o tema que pretendo desenvolver no que se seguirá.
A cada um destes três elementos da paisagem urbana contemporânea, bem assentes numa tradição secular de transmissão cultural, estará por certo associada a ideia de Literatura. Aqui ocorre-me uma ideia de literatura que se estende ao acto de escrever, de ler e de publicar. Tal como a idea de café, livraria ou praça pode estar interligada, se de um ponto de vista de fruição do espaço público for observada, também os três actos atrás referidos são complementares de um ponto de vista funcional, performativo.
Fica então mais claro, o objectivo deste percurso. Partir ao encontro dos pontos de intersecção entre Literatura, espaço público e construção de uma forma de ser colectiva a que poderemos chamar cultura. Neste caso, remetendo para a ideia de Europa defendida por George Steiner.
Em Berlim, deveria estar em casa. Falta-me ainda encontrar esses lugares. A praça, a livraria e o café preferidos, perfeitos se possível.
Buchhandlung ocelot
Brunnenstr. 181, 10119 Berlin. Öffnungszeiten Mo-Sa 10:00-20:00
É uma mistura entre café e livraria. Poderia bem preencher dois terços da minha busca. Não fica localizada numa praça mas sim numa rua de ligação entre duas vias principais, a Torstraße e a Bernauer Straße, cruzando a Invalidenstraße na fronteira entre Prenzlauer Berg e Mitte. Há uma praça bem perto, a Rosenthaler Platz, onde a rua da livraria começa e acaba, se quisermos seguir a numeração dos edifícios. Seguindo para Norte, é possível ir desde Hackescher Markt até Gesundbrunnen, o ponto Norte de ligação à rede de combóios que envolve e cruza Berlim.
O sistema de numeração utilizado em Berlim, um deles pelo menos, leva a que se possa dizer que há ruas em Berlim que começam e acabam no mesmo ponto. Há então um retorno acidental à praça, a Rosenthaler Platz.
Como muitos outros pontos da cidade a que se dá o nome de praça, é mais um imenso cruzamento repleto de carros, ruidoso e, dada a necessidade de semáforos para regular o fluxo do trânsito, um lugar com elevados níveis de poluição atmosférica. A permanente presença de automóveis com o motor ligado, embora parados a aguardar o sinal verde, faz com que uma permanente fonte de gases esteja parada na praça. Num extremo da Brunnenstrasse uma fonte saudável, ponto de partidas e chegadas, no outro uma fonte de gases poluentes de onde a rua parte para depois lá voltar.
Felizmente, mesmo em frente ao edifício que dá a morada à livraria, que também é café, estende-se, colina acima, um pequeno parque, criando uma espécie de anfiteatro urbano que teria como palco a própria livraria.
Se acrescentar que corre um elétrico na rua que faz paragem em frente da livraria, pode-se dar o caso de um convite para um encontro nesse lugar passar a ser muito bem recebido.
Na ideia de praça, livraria ou café como lugar privilegiado de difusão cultural na tradição europeia, é fundamental que duas ou mais pessoas se possam encontrar, por acaso ou por encontro marcado. Qualquer fim de tarde meio ensolarado, permite, desde o parque, apreciar o requentar da pele de frente para o sol.
Já encontrei o livro A Ideia de Europa de George Steiner. Fotocopiei o exemplar disponível na biblioteca da HU, o Grimm Zentrum. No mesmo dia descobri um outro Steiner, que não George, mas Georg. Alguém tipo jardineiro, como a Lina quer ser quando crescer, apesar de eu já lhe ter dito que arquitectura paisagista é uma excelente profissão de futuro. Por sorte temos um atelier de arquitetura paisagista na vizinhança. Havemos de por lá passar. Entretanto o Georg Steiner vai esperar para outro dia. Encontrei uma referência a um seu artigo num periódico depositado na Biblioteca central de Berlim.
"Europe is made of coffee houses, of cafés. These extend from Pessoa's favourite coffee house in Lisbon to the Odessa cafés haunted by Isaac Babel's gangsters."
dizem que acabou a guerra
queria dizer o que me vai na alma
temos tempo não te apresses
ouve bem e vai com calma
para ti é um momento
para mim é um lamento
sente a brisa sente o vento
já nem sei se me aguento
abre o vidro vê lá fora
o melhor virá agora
abre o vidro vê lá fora
corre a minha última hora
lado a lado pela serra
temos tempo não te apresses
dizem que acabou a guerra


