sábado, novembro 07, 2020

Geringonças



By Krd - Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=74929363



Em Berlim, tal como aconteceu em 2015 em Portugal, o Governo estadual é apoiado por uma coligação R2G (Rot-rot-Grün ), traduzido para vermelho-vermelho-verde, ou seja, Socialistas, Bloquistas/Comunistas, Verdes. Em Portugal chama-se Geringonça ao que aqui se designa por R2G. Num país longamente habituado a coligações de governo, quer a nível estadual quer a nível federal, é de salientar a diversidade nas soluções encontradas. Há no entanto um leque de coligações que ainda nunca se verificou: toda e qualquer uma que conte ou precise do apoio do partido de extrema direita, o AFD.

Ainda não se verificou mas já esteve quase. No estado federado da Turíngia, Thomas Kemmerich, líder local dos liberais do FDP, chegou a ser eleito com 45 votos contra 44, apoiado pelas bancada do partido de Merkel, CDU e pela bancada do AFD, liderado por Björn Höcke, ou seja, a extrema direita. Traduzindo, uma coligação entre Liberais, Democratas Cristãos e Nacionalistas/Populistas de extrema direita aliou-se contra a esquerda para apoiar a formação de um governo regional. A esquerda não se conseguiu entender com os verdes e o centro direita fechou os olhos ao que aí vinha.

Kemmerich chegou a ser empossado no parlamento regional como Primeiro Ministro e daí resultou a famosa foto do aperto de mão a Höcke, prontamente comparada a uma outra foto do passado. Durou três dias no cargo, acabando por se demitir, o que levou à marcação de novas eleições.

As razões para a sua demissão são fáceis de compreender. Em primeiro lugar a Alemanha entrou em convulsão após a quebra do cordão sanitário que tornava impossível alguém sequer pensar em formar coligações com a extrema direita que, saliente-se, é não só a terceira força política no Bundestag, parlamento federal, como ainda a primeira força da oposição, o que em termos de folclore democrático tem a sua importância.

Segundo, e sem estar a ordenar as razões por qualquer ordem de valor ou importância, a até então líder eleita da CDU, Annegret Kramp-Karrenbauer, escolha quase pessoal e direta de Merkel para a suceder no partido e com elevada probabilidade de vir a ser a próxima Chanceler federal, demitiu-se da liderança do seu partido. Desempenha actualmente as funções de Ministra da Defesa no Governo de Merkel. Angela Merkel tinha já decidido não se recandidatar e pôr fim à sua carreira política a nível interno. Traçou um plano para a sua sucessão no partido e pensou levá-lo a eleições.

Neste momento, e continuando a viagem na tormenta, a CDU continua com um processo não planeado de escolha do seu futuro líder que conta com pelo menos três candidatos, todos homens. No seu último episódio, o congresso marcado para Dezembro teve de ser adiado devido à Pandemia. As eleições federais para a escolha da sucessão e Merkel serão também em 2021.

Numa nota mais pessoal, e por forma a dar algum do tom com que se viveram esses dias por terras germânicas, a possibilidade de haver um governo regional eleito e apoiado pela extrema direita fez soar as campainhas do "vamos embora para outro país que isto está a aquecer", ao que eu, deitando alguma água na fervura, respondi: "calma, que nós vivemos em Berlim e aqui os ventos são outros".

É verdade que no estado federado de Berlim, que corresponde à própria cidade com os seus 4,3 milhões de habitantes, ainda se respira a liberdade. No entanto, Berlim é também a capital e na capital as coisas são sempre diferentes.

Annegret Kramp-Karrenbauer bem o pode dizer. Mostrou a muitos que há portas que não se podem abrir quando antecipadamente sabemos quem está do outro lado. A sua enorme demonstração de grandeza política é merecedora de uma estátua no meu panteão pessoal imaginário. Tinha tudo para vir a ser uma das mulher mais poderosas do mundo mas, por razões para muitos difíceis de entender quase que se pode dizer que abdicou do poder. Tiro-lhe o meu chapéu.


segunda-feira, maio 04, 2020

Em busca da Sociedade Esclarecida


Dragagens no rio Sado

Em busca da Sociedade Esclarecida





A causa do fim do projeto de melhoria das acessibilidades ao Porto de Setúbal é uma causa colectiva na medida em que afecta positivamente ou negativamente toda a comunidade. Os seus efeitos, positivos ou negativos, podem fazer-se sentir em toda a região que tem o estuário do Sado no seu ventre. Afecta as comunidades dos concelhos de Setúbal, Grândola e Alcácer do Sal em diversos graus e sentidos. Não pode ser restrita (a causa) a Setúbal e aos seus habitantes. Poderemos ainda adicionar os efeitos positivos e negativos nos concelhos adjacentes tais como Palmela, Sesimbra, Montijo, Moita, Seixal, Almada ou Barreiro na margem a norte do rio Sado integrantes da realidade geográfica que é a Península de Setúbal. As conexões respeitantes aos concelhos limítrofes de Grândola e Alcácer do Sal serão talvez já mais dissipadas nos efeitos aí produzidos. O processo de licenciamento das obras obriga por isso ao envolvimento dos vários municípios. As regras a que estão obrigadas as autoridades administrativas imanentes do poder político local, os órgãos municipais democraticamente eleitos, de divulgação do projecto eram inerentes aos três municípios, sendo que a inacção responsabiliza aos três. Poderá haver uma violação do direito a ser informado, detido pelos munícipes, bem como uma violação da obrigação de informar que cabe aos responsáveis pela gestão da coisa pública. Sem Informação não há sociedade esclarecida e sem esclarecimento não é dada à população a possibilidade de discutir seriamente o assunto.

As regras de publicitação dos estudos de impacte ambiental parecem onerar o município de Setúbal à publicação em edital do período de consulta pública do projeto, o que foi feito, embora a meu ver, de forma, pouco aceitável por não favorecer o referido esclarecimento público de modo eficaz e seguro. Não basta, não pode bastar, a publicação de um edital para dar a conhecer à população os efeitos de uma obra que se desenrola no coração da cidade, o rio Sado.

O caso pode ser encarado como uma falha geral no sistema político, isto é, na gestão da coisa pública que entregamos nas mãos dos nossos representantes políticos. Claro que esta gestão implica ter em conta não só os interesses públicos, os da população em geral quer seja a do presente como a do futuro, como os interesses privados, os de empresas e restante aparelho produtivo e administrativo. A montante de cada novo projecto existem direitos concedidos a entidades particulares que tem de ser balanceado com o bem maior que é o do interesse humano e ambiental. A defesa de um não elimina a existência do outro e num estado de direito poderá por vezes dar-se o caso de direitos adquiridos previamente terem de ser recompensados por uma perda futura espectável.

Os portos e a sua gestão são um bom exemplo de conflito entre diversos interesses. A administração dos portos está entregue a entidades de direito privado. Aos portos está associada por norma uma área circundante por questões estratégicas ( e outras como de segurança pública, integridade territorial, ou ainda ecológica). No entanto essa área está em primeiro lugar inserida num determinado município. A gestão e planificação dos diversos interesses está registado nos planos directores municipais, PDM. Estes obedecem a regras de discussão e aprovação bem claras ainda que muito pouco conhecidas pela generalidade dos cidadãos. Fica claro que os cidadãos devem desde cedo tomar parte nessa discussão.

As riquezas naturais que enquadram a cidade de Setúbal e que os Setubalenses têm o privilégio de viver como seu ambiente natural são de valor incalculável. As áreas protegidas, na Serra da Arrábida, no estuário do Sado, incluindo ainda a Costa Alentejana e Vicentina criaram uma relação homem-meio-ambiente que se desenvolve desde sempre de forma cooperativa. Da natureza aprenderam os habitantes da região a extrair o melhor que lhes foi oferecido. Peixe, Sal, vinho, arroz, marisco...
Desde tempos que recuam ao Paleolítico e que continuaram com Fenícios, Romanos, Árabes ou Cristãos, que as riquezas naturais atraíram à região gente vinda de longe, por vezes mesmo de muito longe.

Em Alcácer do Sal é possível constatar o decorrer do tempo plasmado no acervo da cripta arqueológica do Castelo. Num pequeno quadro exibe-se uma riquíssima colecção de moedas encontradas nas diversas escavações efectuadas na cidade e arredores e nele é possível ver uma pequena moeda com a gravura de um golfinho.

As notas de euro por exemplo saem ainda das rotativas sem imagens de Reis, presidentes heróis ou monumentos históricos. Quem tem memória do escudo lembra-se por certo de uma torre de Belém, ou de um Gago Coutinho, Bocage, Camões, entre outras figuras. Será que, à data da cunhagem daquela pequena moeda, alguém achou que um golfinho era o melhor símbolo para identificar a região? Que honra para os Golfinhos!

Os Setubalenses e amantes da região sentem e com razão uma forte ligação afectiva ao meio ambiente que os rodeia ou que lá os atrai. Para além do peixe assado que desde há décadas atrai Lisboetas aos restaurantes da cidade, existe também, para alguns privilegiados, a Arrábida, e mais concretamente o Portinho da Arrábida. As barracas de praia dos pescadores foram facilmente arrasadas nos tempos de Carlos Pimenta, por entre segundas habitações de férias. Para alguns ficaram as casas quase secretas no meio da mata, algumas detidas por gente de fora. No entanto, a Serra é respeitada. Há uma zona que devido à sua riqueza vegetativa está completamente vedada á intrusão pelo homem. Trata-se de uma reserva integral constituída por mata e vegetação original mediterrânica. O seu valor é reconhecido por todos e a sua integralidade respeitada.

No coração da Arrábida instalou-se, faz décadas, uma fábrica de cimento e por lá irá continuar por várias décadas ainda. A sua licença para extracção de calcário, ou seja, para esventrar a serra foi recentemente prolongada por mais 50 anos. Devido à presença da Secil na Serra da Arrábida e por o processo de produção implicar o recurso a fornos de altíssimas temperaturas foi decidido ali instalar a co-incineração de matérias perigosas. Não aconteceu sem uma forte oposição da população local, a de Setúbal e a da Arrábida, mas e apesar disso, a decisão foi mais uma vez avante.

Qual é o impacto na saúde pública dos setubalenses? Existem estudos sobre a incidência de doenças do foro respiratório ou outras que assegurem a continuação de tal prática sem risco para quem ali vive e que permitam avaliar ainda que à posterior a decisão política tomada à época? Foram os seus resultados dados a conhecer publicamente?

Foi de resto por causa da existência da co-incineração na Arrábida que o porto de Setúbal se tornou no destino para resíduos provenientes de outros países europeus dada a existência de um mercado interno de resíduos..

Os estaleiros navais da Setenave, agora Lisnave, são um dos maiores a nível mundial na capacidade de reparação de navios. A história dos estaleiros e das restantes empresas ali instaladas nas décadas de 60 e 70 do século passado revelaram-se decisivas, dada a fonte de contaminantes químicos lançados para o estuário, para o desaparecimento dos Golfinhos do estuário. Durante anos, a comunidade de golfinhos foi-se simplesmente embora do estuário que usa e sempre usou para sua residência, maternidade e porto de abrigo. Os contaminantes presentes no fundo do rio são, tristemente, parte do património industrial de Setúbal e bem poderiam ter lugar a evocação no museu do trabalho.  

A relação que se estabeleceu já num passado longínquo entre homem e meio ambiente e talvez em primeiro lugar entre golfinhos e o estuário deverá ter tido por base uma natureza de índole mais cooperativa do que competitiva. É esta relação de forças que sempre se estabelece entre dois modos de habitar um ecossistema tão variado e rico que determina não só o presente como também o futuro. O legado que quisermos deixar para quem vier depois de nós será sempre um reflexo das decisões políticas tomadas hoje, em nosso nome, tendo em mente os interesses da comunidade. Dependerá sempre do grau de esclarecimento da população local a aceitação ou reprovação de projectos que, tal como o da melhoria das acessibilidades ao porto de Setúbal, lhes são impostos.


domingo, fevereiro 09, 2020