quinta-feira, maio 22, 2014

Tempelhofer Feld

No início era o desconforto pela dureza da cama. A cama era apenas chão frio, sujo, duro. Depois de vencida a dificuldade em abrir os olhos, dada a imensa claridade da manhã, do dia, olhei sobre o ombro, rodei a cabeça percorrendo o horizonte em redor e só então percebi que não estava em casa. Tantas vezes a cama é dura, mesmo em casa. Em frente e junto ao horizonte, percebi ainda que se erguiam algumas casas, prédios de habitação, melhor dito. Algumas árvores em volta das casas, mas nada que reconhecesse ou que pudesse ajudar a descobrir onde tinha posto a cama. Por fim, levantei-me.

No lado oposto ao das casas, deparei-me então com uma estrada. Era uma estrada muito larga, vazia, comprida de perder de vista e a direito. Percorrendo com os olhos esta linha de prumo, percebi então que, ao fundo, outras casas e edifícios se erguiam. Ficavam distanciados, estes edifícios e estas casas, ainda por um bom bocado de horizonte.

O normal perante uma estrada é pormo-nos ao caminho. Assim fiz. Após andar alguns metros, comecei a ter alucinações. Julgava estar a ver um avião. Em terra. Um avião? No meio deste descampado?

Pousado no cimo de uma pequena colina, descansava o avião. Pelo ar que apresentava e pela cor corroída da fuselagem, aparentava estar ali faz longo tempo. Só quando subi ao seu pedestal é que me apercebi que no descampado também havia um grande edifício. Formando uma espécie de anfiteatro, o edifício fazia ainda lembrar uma asa aberta que, assim, abraçava toda a área por onde se estendiam as várias estradas. Do alto da pequena colina consegui perceber que eram vários os caminhos asfaltados. Claro! Um aeroporto!

Por uma entrada à direita do edifício, chegava alguém com um enorme saco às costas. Do seu interior foi retirando um longo pano e várias cordas, que foi desenrolando com cuidado.

No meu melhor alemão perguntei-lhe o que o trazia num dia tão gelado a este lugar.
Snowkiten. Este espaço é ideal para a sua prática, apesar dos ventos contrários, ou por isso mesmo”.

No passado, aterravam e levantavam muitos aviões. Hoje, os aviões que restam estão em terra e as únicas asas que voam são as dos Kites e as dos pássaros. Manhã fora, foram aparecendo grupos de pessoas para um muito corajoso jogging e famílias de bicicleta.





Após o fecho por decisão popular, em 2009, o antigo aeroporto de Tempelhof transformou-se no Tempelhofer Feld. Num dos vários painéis informativos espalhados pelo parque pode ler-se ainda que agora os voos estão restritos às aves.


Aquele que já foi a mãe de todos os aeroportos, é hoje o maior parque aberto ao público em Berlin e provavelmente na Europa. Assim há-de permanecer até que os Berlinenses o desejem como tal.

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