segunda-feira, maio 27, 2013

O Político

Miguel Poiares Maduro chegou apenas recentemente à Política. À chegada, foi, devido às suas capacidades e ao nível de conhecimento, já sobejamente provados, agraciado por outros de igual valia

Como académico tem e dá provas de Macau a Chicago, passando, entre outras, por Londres, Florença, Madrid e Lisboa.

Como político, digamos que a sua capacidade estava como que adormecida. Em termos apenas de intervenção porque, o processo indispensável de aquisição de conhecimento necessário à tomada de decisão leva o seu tempo. Antes de emergir está como que adormecido, em estado latente.

Apenas alguns se dão ao trabalho de formiga que é armazenar conhecimento e apenas esses poderão estar na posição de decisores políticos.

Estas duas fases e formas de se ser político são as que mais falta fazem à Política.

A Política vem sempre antes e só depois o Político.

Em construção...

Busco, Pedro, Miguel Poiares Maduro. Fico a saber que nomeou, entre os secretários de estado, Pedro Lomba. Pesquiso Pedro Lomba e chego ao artigo por si assinado, como jurista, e publicado num blog de jornal. Isto de escrever e gravar o texto num blog tem o que se lhe diga. Associada à ideia de blog está a perenidade que a Internet pode oferecer. Por vezes dá-se o fenómeno da multiplicação e os nossos escritos podem fugir do nosso controlo. Por mais que se elimine um endereço, coisa possível, há sempre um registo atrás de qualquer esquina. A Internet também tem esquinas, muitas.

Que lamentável! De nada.






Quinta-feira, 17 de Março de 2011; Lamentável é a ingratidão; Público, 2011-03-17; Pedro Lomba.


"A guerra colonial começou há 50 anos. Não é do meu tempo.
Só não tem o significado da guerra do Peloponeso,
porque,
digamos,
foi uma guerra que envolveu Portugal,
e Portugal sempre é o país onde nascemos.

É difícil falar dela sem ceder às brigadas do politicamente correcto.
Não foi o caso do Presidente da República,
que,
numa cerimónia
de homenagem
aos antigos combatentes,
invocou o exemplo 
da "coragem"
e do "desprendimento
com que os jovens de há 50 anos
assumiram a sua participação
na guerra do Ultramar".


Isto, que em qualquer democracia digna não mereceria mais do que uma nota de pé de página, no nosso
Portugalinho ainda não se pode dizer.
O policiamento a que somos invariavelmente sujeitos deprime.
A terreiro tinha logo de vir o Danton do burgo, Francisco Louçã, criticar 
Cavaco por "reescrever a História"
e "distinguir a intervenção militar".
E acrescentou a seguir o líder do Bloco de Esquerda:
"Cavaco Silva está em guerra com o passado. Só assim se compreende
comparar as "Forças Armadas de hoje com as da ditadura e do colonialismo."

Nunca me ocorreu fazer o mais leve reparo
sobre aqueles que, tendo sido forçados pelo regime
a combater
uma guerra
de que discordavam frontalmente,
resolveram desertar,
fugir
ou exilar-se.

(Recordo que essa infâmia
foi arremessada contra Manuel Alegre
nas últimas presidenciais.)

Não é só por falta de legitimidade histórica ou política.
Por uma questão básica de respeito:
eles tinham convicções
e se há exercício que testa
genuinamente
a consciência liberal de uma pessoa
é esse.

Nenhum Estado,
nem mesmo numa democracia
quanto mais numa ditadura,
pode dispor
em absoluto
das convicções de consciência
de uma pessoa.

E não preciso dizer que muitos são credores do nosso agradecimento:
lutaram por uma democracia que,
apesar de ter chegado a este estado doentio,
será
sempre
superior
às alternativas.

Pelas mesmas razões,
tenhamos a coragem de "vestir a pele"
dos muitos portugueses nascidos na década de 30-40
que tomaram a decisão precisamente contrária.


Melhor,
que não tomaram qualquer decisão,
porque encararam a participação
na guerra
como
um facto inevitável.


Foram muitos.
Entenderam que o seu dever era estar ali.
Fizeram-no pagando um preço pessoal elevado.

Para a maioria, presumo, não era Salazar nem Caetano.


Eram eles próprios,
era o sentido do dever,
da dignidade
e da sobrevivência.

Muitos eram milicianos,
não eram bem-nascidos nas burguesias
de Lisboa como o próprio Louçã e outros,
não tinham tempo para pensar em política.

E o que tem Louçã para dizer a esses portugueses:
que estavam enganados,
que todo aquele empenho,
coragem
e honra
não merecem nenhum respeito,
reverência
ou admiração.

Que eles não são,
nem podem
ser
exemplo
para
ninguém.


É isto que a cabeça totalitária de Francisco Louçã tem para lhes dizer.

Pois, como outros dizem,
não apaguem a memória.

Os antigos combatente são mesmo um exemplo.
E isto, repito, não é reescrever a História.
A História está escrita.
Tem sido escrita.
Não pode é ser a História contada pelos que dela se apropriaram.


Se Louçã percebesse,
já não digo valorizasse,
um mínimo da ética militar,
um mínimo da continuidade
de valores
que deve animar um país,
não diria que existiam
umas Forças Armadas
da "ditadura e do colonialismo"
e outras da democracia.


Existia um regime da ditadura,
tal como existe outro regime da democracia.
Sim,
não são iguais.

Mas
o dever militar,
que, entre outras coisas,
requer obediência e prontidão,
esse tem de ser o mesmo.

A culpa e a responsabilidade
pertencem aos políticos.

Os portugueses impreparados
que irresponsavelmente
partiram para a Flandres
em 1918
sabiam disso.

Louçã e companhia,
na sua falta de gratidão
e respeito pelo passado,
gostariam de esconder
os antigos combatentes,
fechá-los num armário
para que eles não apareçam,
porque
são a memória de um tempo iníquo.
E dizem-se eles democratas e liberais."


Não vejo onde, Jurista!



quinta-feira, maio 23, 2013

Um desaguisado

A propósito de uma suposta Ratoeira Alemã, vem, num artigo de opinião, André Macedo alertar para um suposto desaguisado entre a Comissão Europeia e a Alemanha. Tudo se passa em volta do encontrar de alvo a quem apontar por responsável no falhanço social - o mais sofridamente  experienciado, ainda que não resignadamente - e político em que nos vemos mergulhados desde o verão de 2010.
Como refere no artigo acima mencionado:
"...depois de termos engolido tudo, depois de termos sido acusados de todas as patifarias e desperdícios, agora que estamos de joelhos, com a dívida pública nas nuvens, agora que falta um ano para o fim do resgate... os pretensos salvadores zangam-se e reconhecem: este modelo não funciona e está carregado de erros".
O plural empregue no sujeito, o nós, que tem a barriga cheia e sente dores de acusação injusta, representa hoje 199 658 281 cidadãos. Salvo algum erro meu no uso da ferramenta excel, trata-se da população da Islândia, do Reino Unido, da Grécia, da Irlanda, de Portugal, de Itália, de Espanha, do Chipre e com a da Eslovénia já incluída. Esta é apenas uma das dimensões do falhanço, pois outros tantos podem juntar-se nem que seja por adesão empática. Em qual destas regiões da Europa se podem sentir os seus cidadãos a salvo da onda de insanas - pela excessividade e continuidade - decisões políticas?

Os programas de assistência estão na base da discórdia entre a Comissão Europeia e a Alemanha, ao que parece. Por mim, manifesto o conflito que me leva a discordar do suposto desaguisado. Um barulho surge através dos meios de comunicação social como um lavar de mãos seguido de um elogio. Nada mais errado para o meu ouvido. Se a poderosa região alemã é a quem se aponta, então é porque se reconhece implicitamente que é de lá que vem a liderança europeia. Não é César que lava as mãos mas sim Pilatos. Não passa o apontar, no entanto, de um erro de percurso. Também não é à Comissão Europeia que cabe o papel de administrador provincial. Para quem sentiu vocação para Administrador, o lavar de mãos ainda está por fazer. Mais tarde virá o dia, quem sabe.

O papel da Comissão Europeia na sinfonia de Bruxelas, no que de forma direta se relaciona com o desaguisado, resume-se a administrar a competência exclusiva da União no que concerne ao "Estabelecimento das regras de concorrência necessárias ao funcionamento do mercado interno"; e à "Política monetária para os Estados-Membros cuja moeda seja o euro1"; de acordo com o Tratado que em Lisboa foi assinado, depois de escrito em primeira mão na língua alemã. A primeira competência abrange os quase duzentos milhões de europeus em cima contabilizados. A segunda quase exclui cerca de 63 000 000 de europeus, mas apenas quase.

As assimetrias no mercado interno sempre existirão e, ao seu funcionamento, de pouco lhe valem as regras, estabelecidas ou não pela União. Os excedentes comerciais apenas deixarão de ser vistos com maus olhos, ou até como excedentes, quando vivermos de fato em União. Já alguém ouviu um texano a queixar-se da balança comercial comercial californiana? Ou vice versa? Um lisboeta de um berlinense ou parisiense? No tempo de Trajano, a Capadócia tinha ainda administrador romano mas, por certo, um que falava a língua dos cultivadores de trigo e dos chicoteadores de cavalos.

Se os erros apontados são de diagnóstico ou de má prescrição pouco ou nada interessa aos mais de 500 000 000 de europeus e seus associados. Parece sim que voltámos ao tempo das províncias imperiais e dos estados-clientes. No entanto, nem o Império Romano sofria ainda do complexo de Ingenuity Gap nem a televisão é hoje o único fornecedor de critical actors.

"In this new world we are entering, producers of content for electronic media, especially television, are critical actors: In a time of increasing fragmentation of audiences and message, they must work to build that broader moral community - and the global human identity - that will allow us to bridge the widening gulfs of wealth and power, and to begin the common search for solutions to the enormous problems we face"2.

Temos por hábito o apontar de dedo que não é mais do que aquela posição de chofer que comenta o texto no Correio da Manhã. Mas teremos ainda dinheiro para nos sentarmos no banco de trás?


1- Tratado de Lisboa que altera o Tratado da União Europeia e o Tratado que institui a Comunidade Europeia, assinado em Lisboa em 13 de Dezembro de 2007; in Jornal Oficial da União Europeia, de 17 de Dezembro de 2007; 2007/C 306/01

2 - The Ingenuity Gap in a Fragmented World, Thomas Homer-Dixon, address to Banff TV Festival, June 11, 2001